Identificam-se em nossa população brasileira, situações envolvendo grupo de familiares que adotam condutas inadequadas em relação ao seu parente idoso ou com transtorno mental, os quais estão aposentados ou encontram-se recebendo algum tipo de benefício concedido pelo Governo.
Instala-se em determinadas famílias uma cultura de acomodação e exploração do seu parente fragilizado e em desvantagem social, ou seja, os familiares muitas vezes não buscam trabalho e acabam usufruindo e se apropriando indevidamente do recurso financeiro do idoso ou da pessoa com transtorno mental, de maneira arrogante e desrespeitosa. O intrigante é que os indivíduos explorados passam a ser encarados como um fardo pesado, “uma cruz muito pesada”, porém o seu recurso financeiro não assume essa significação.
Muitos idosos e pessoas com transtornos mentais são submetidos a um tétrico cenário composto por prática de maus-tratos, violência psicológica, negligência familiar, “coisificação humana”. Comumente são vítimas de permanentes mensagens iatropatogênicas, às quais aniquilam o seu auto-conceito, levando-os a considerarem-se desprovidas de qualquer valor humano, e a assumirem a condição de verdadeiros estorvos para a família.
De fato não é fácil cuidar de pessoas idosas e indivíduos com transtornos mentais que apresentam um quadro clínico e/ou psicopatológico grave, crônico, e que manifestam um elevado grau de dependência (sentido amplo) em relação aos seus cuidadores. Estes não raramente sentir-se-ão cansados, irritados, “sobrecarregados”, ansiosos, devido ao cuidado intensivo que têm de prestar, bem como às diversas alterações que devem realizar em suas dinâmicas de vida pessoal, familiar e social.
Entretanto, isso não dá direito às famílias de praticarem maus-tratos ou de explorarem os seus parentes como exímias sanguessugas. Assim, se faz necessário que os indivíduos não adeptos à cultura sanguessuga, se mantenham atentos, e denunciem aos órgãos responsáveis a referida prática, implementando ações que visem zelar pela dignidade, proteção e qualidade de vida dos idosos e das pessoas com transtornos mentais.
>> MÁRCIA MONT’ALVERNE DE BARROS é terapeuta ocupacional do CAPS II de Sobral-CE/ e mestre em Saúde Pública, pela Universidade Estadual do Ceará (Uece)
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