Feliz dia das mães separadas
Dia 10 de maio estaremos comemorando o dia das mães, mas eu penso que as mães separadas mereciam um dia só
para elas. Não que elas sejam melhores mães que as casadas ou as de antigamente, mas certamente têm mais
trabalho.
O movimento feminista, a pílula anticoncepcional e a lei do divórcio nos permitiram conquistas espetaculares, mas
também uma carga de trabalho e responsabilidades excepcionais.
Restringindo-me à função materna, às vezes tenho inveja das mães de antigamente que não precisavam decidir
muita coisa, pois os papéis estavam definidos: o pai trazia o dinheiro e a autoridade e a mãe gerenciava e cuidava da casa e da educação dos filhos.
Ao pai cabia a decisão sobre se deixava ou não a filha participar da festa, a que horas chegar ou se podia namorar; quando o menino podia dirigir, beber ou frequentar um bordel.
Se algo desse errado, nenhum dos pais era culpado, pois fizeram tudo que foi possível. Hoje, não, pai só participa das glórias; se algo sai errado, a mãe separada é a única culpada: afinal, a ela foi dada a guarda das crianças. E o pai? Ora, ele tem de trabalhar para pagar pensão e ainda sustentar outra família, não tem tempo para se preocupar com os filhos.
Também está fora de moda pedir pensão a ex-marido; afinal, somos trabalhadoras iguais a eles e podemos nos sustentar.
Cuidado, minha amiga, essa é uma grande armadilha! Enquanto ele paga o que o juiz obriga, que é previsível, você pagará o aluguel, a empregada, a energia, o condomínio, a internet, a TV a cabo, as roupas, os passeios da escola, o inglês, as saídas com a galera e os presentes para as professoras e namoradas. Ainda irá buscar e levar na escola, no futebol, no bale, no inglês, na casa de praia dos amigos. Além das festas, do teatro, das reuniões de pais e mestres, das festinhas dos dias das mães e dos pais. Sim, porque os filhos se ressentem se você faltar, mas painho, coitado, sempre estará trabalhando nestes dias.
Se você pensa que as noites insones de quando eles eram bebés acabaram, engana-se. Agora virão as noites insones dos quinze anos, das festinhas, dos shows, dos festivais de inverno, e ainda por cima reze para ter um namorado compreensivo, se é que você vai ter um, pois mãe separada jamais desliga celular, leva fama de galinha e enfrenta a cara feia dos porteiros, vizinhos, parentes e afins. Afinal, o que é que uma mãe de família está fazendo essa hora na rua?
Essa história de fins de semana alternados é balela, pois pai separado só fica com os filhos enquanto crianças e se a nova namorada deixar. Eles são capazes de adoecer, arrumar trabalho e viajar de última hora para escapar da obrigação; afinal, só será preso se deixar de pagar a pensão.
Também arrume um chefe que compreenda sua situação, pois você faltará inúmeras vezes ao trabalho, quer porque eles adoeceram ou sofreram algum tipo de acidente, quer porque a empregada faltou ou você mesma pegou uma estafa. Aliás, ficha médica de escola só deveria ter o telefone da mãe, pois o pai nunca é encontrado nessas ocasiões.
Esqueça a pós-graduação ou arrumar mais um emprego, a não ser que você tenha inventado um dia com trinta horas. E se pensa que quando os filhos entrarem na faculdade você terá folga, esqueça. No Brasil os filhos só deixam a casa dos pais para estudar fora ou casar, mas a pensão cessa quando eles se tornam adultos.
Enfim, sua vida recomeçará depois dos cinquenta, quando a osteoporose e a menopausa tomaram conta do seu corpo e 80% dos homens livres já se casaram novamente ou morreram. Seu ex-marido estará com uma mulher mais nova e seus filhos com meio-irmãos. Por isso que, se existir reencarnação, pedirei para na próxima vida ser pai, mas enquanto ainda vivo esta, desejo um feliz dia das mães separadas para todas nós.
"Lillian Arruda Médica,
professora da Universidade de Pernambuco"
Dia 10 de maio estaremos comemorando o dia das mães, mas eu penso que as mães separadas mereciam um dia só
para elas. Não que elas sejam melhores mães que as casadas ou as de antigamente, mas certamente têm mais
trabalho.
O movimento feminista, a pílula anticoncepcional e a lei do divórcio nos permitiram conquistas espetaculares, mas
também uma carga de trabalho e responsabilidades excepcionais.
Restringindo-me à função materna, às vezes tenho inveja das mães de antigamente que não precisavam decidir
muita coisa, pois os papéis estavam definidos: o pai trazia o dinheiro e a autoridade e a mãe gerenciava e cuidava da casa e da educação dos filhos.
Ao pai cabia a decisão sobre se deixava ou não a filha participar da festa, a que horas chegar ou se podia namorar; quando o menino podia dirigir, beber ou frequentar um bordel.
Se algo desse errado, nenhum dos pais era culpado, pois fizeram tudo que foi possível. Hoje, não, pai só participa das glórias; se algo sai errado, a mãe separada é a única culpada: afinal, a ela foi dada a guarda das crianças. E o pai? Ora, ele tem de trabalhar para pagar pensão e ainda sustentar outra família, não tem tempo para se preocupar com os filhos.
Também está fora de moda pedir pensão a ex-marido; afinal, somos trabalhadoras iguais a eles e podemos nos sustentar.
Cuidado, minha amiga, essa é uma grande armadilha! Enquanto ele paga o que o juiz obriga, que é previsível, você pagará o aluguel, a empregada, a energia, o condomínio, a internet, a TV a cabo, as roupas, os passeios da escola, o inglês, as saídas com a galera e os presentes para as professoras e namoradas. Ainda irá buscar e levar na escola, no futebol, no bale, no inglês, na casa de praia dos amigos. Além das festas, do teatro, das reuniões de pais e mestres, das festinhas dos dias das mães e dos pais. Sim, porque os filhos se ressentem se você faltar, mas painho, coitado, sempre estará trabalhando nestes dias.
Se você pensa que as noites insones de quando eles eram bebés acabaram, engana-se. Agora virão as noites insones dos quinze anos, das festinhas, dos shows, dos festivais de inverno, e ainda por cima reze para ter um namorado compreensivo, se é que você vai ter um, pois mãe separada jamais desliga celular, leva fama de galinha e enfrenta a cara feia dos porteiros, vizinhos, parentes e afins. Afinal, o que é que uma mãe de família está fazendo essa hora na rua?
Essa história de fins de semana alternados é balela, pois pai separado só fica com os filhos enquanto crianças e se a nova namorada deixar. Eles são capazes de adoecer, arrumar trabalho e viajar de última hora para escapar da obrigação; afinal, só será preso se deixar de pagar a pensão.
Também arrume um chefe que compreenda sua situação, pois você faltará inúmeras vezes ao trabalho, quer porque eles adoeceram ou sofreram algum tipo de acidente, quer porque a empregada faltou ou você mesma pegou uma estafa. Aliás, ficha médica de escola só deveria ter o telefone da mãe, pois o pai nunca é encontrado nessas ocasiões.
Esqueça a pós-graduação ou arrumar mais um emprego, a não ser que você tenha inventado um dia com trinta horas. E se pensa que quando os filhos entrarem na faculdade você terá folga, esqueça. No Brasil os filhos só deixam a casa dos pais para estudar fora ou casar, mas a pensão cessa quando eles se tornam adultos.
Enfim, sua vida recomeçará depois dos cinquenta, quando a osteoporose e a menopausa tomaram conta do seu corpo e 80% dos homens livres já se casaram novamente ou morreram. Seu ex-marido estará com uma mulher mais nova e seus filhos com meio-irmãos. Por isso que, se existir reencarnação, pedirei para na próxima vida ser pai, mas enquanto ainda vivo esta, desejo um feliz dia das mães separadas para todas nós.
"Lillian Arruda Médica,
professora da Universidade de Pernambuco"
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