16 de outubro de 2011

O encontro com a ajuda

O tratamento de um dependente de álcool muda de acordo com o perfil de cada um. Além de atendimentos psiquiátricos, grupos de apoio como o AA são importantes para a recuperação de um doente


Não restam dúvidas sobre o impacto devastador do alcoolismo na vida do doente e daqueles que estão ao seu redor. Mas a abrangência dessas consequências só pode ser dimensionada pelas histórias que milhões de homens e mulheres vivem e testemunham após aceitar a doença. Um dos membros do Alcoólicos Anônimos (AA) no Ceará passou 29 anos da vida bebendo, tempo que representa quase metade dos anos vividos. Ele, que era representante comercial, está no AA há 22 anos e diz que ao conhecer a irmandade já tinha passado da fase do desespero, “estava derrotado”.

“Eu não conseguia entender porque estava naquela situação. Eu tinha decidido parar por 30 dias, mas tinha fracassado diversas vezes. Aí eu me resignei a morrer bêbado, passei a tomar todas mesmo, um suicídio lento”, comentou o membro do AA. “O que eu queria, no fundo, era ser feliz, mas sempre me imaginei feliz com o copo na mão. Tive dificuldades para aceitar minha realidade, mas retornei ao grupo, onde se concretizou um trabalho de recuperação belíssimo para mim”, comentou ele, pai de duas filhas e que leva as mensagens do AA para onde vai.

“Minha vida melhorou muito, foi como se eu tivesse saído da lama para um lugar seco, limpo”, comentou outro membro do AA, um motorista de 42 anos, há 10 seguindo os passos da irmandade. Ele comenta que sempre conseguia arcar com as responsabilidades do trabalho, mas a família era quem pagava pelo tempo gasto com a doença. “Eu começava a beber e não me dava conta do tempo, de repente estava na segunda de manhã em um local que nem conhecia”. Após mais de 15 anos de um relacionamento nocivo com a doença, ele foi levado por um amigo para uma reunião do AA. Foi quase um ano para que conseguisse se identificar como alcoólico. “Eu queria parar, mas não aceitava a minha condição e o desabafo de companheiros que passaram pelo mesmo problema mudou a minha vida”.
 
O tratamento

Segundo o psiquiatra Fábio Gomes de Matos, o tratamento muda de acordo com o perfil de cada pessoa. Ele comentou que já existem remédios para diminuir a compulsão, outros que interferem no metabolismo do álcool.

Ele ressalta a importância do acompanhamento por tratamentos em grupo, como o AA, psicoterápicos, assim como uma reinserção global. “É uma gama de profissionais que podem atuar na questão do tratamento e prevenção das consequências do álcool”, comenta. E um membro do AA comparou o alcoolismo à outras doenças para enaltecer a importância do tratamento. “Eu, como um doente, sou parecido com o hipertenso e o diabético, que precisam evitar certos alimentos e hábitos e que, se não tiverem consciência do seu problema, vão morrer. Eu sou doente alcoólico. E isso é uma doença sem cura e se eu não fizer meu tratamento eu vou voltar a beber e morrer”, comentou ele, que está há mais de 20 anos sem beber. O POVO não identifica os entrevistados em respeito ao anonimato dos membros do AA.(Samaísa dos Anjos)

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